Prémio

EscOlar

AEPC2019

enviado a | 07.06.2019

Escola Secundária de Tomás Cabreira

Equipa: Cont'Arte em Artes Visuais e Vídeo - 10º 10ª

cont'arte em artes visuais e vídeo - banda desenhada "os corvos" - 10º 10ª

Descrição

Ciente da importância de conservar e divulgar o nosso Património Cultural, o Agrupamento de Escolas Tomás Cabreira lançou, no início do ano letivo, um projeto multidisciplinar de descoberta e interpretação de diversos autores (antigos alunos e professores) do nosso Agrupamento, O CONT'ARTE.



Sendo a Escola Secundária de Tomás Cabreira uma escola centenária, passaram pelos seus corredores muitos nomes que se foram notabilizando, como Zeca Afonso, Casimiro de Brito, Mário Zambujal, Carlos Augusto Lyster Franco, entre outros.



Carlos Augusto Lyster Franco (1879-1957) foi uma figura de relevo da vida cultural, política e social da cidade de Faro, onde foi Professor e Diretor da Escola de Desenho Industrial de Pedro Nunes e da Escola Industrial e Comercial de Tomás Cabreira, Diretor do Posto Meteorológico, Comissário Distrital da Polícia, Presidente e Vereador da Câmara Municipal de Faro…



Notabilizou-se como pintor e desenhador com vasta obra dispersa por vários museus nacionais e regionais.



Como jornalista foi um cidadão empenhado, participativo e com ideias avançadas para a época. Deve-se a ele, por exemplo, a organização do I Congresso Regional Algarvio, amplamente divulgado no jornal Alma Nova.



Foi diretor do jornal O Heraldo de 1912 a 1917, onde criou uma secção literária “Gente Nova” dedicada à literatura vanguardista que, mais tarde, passou a chamar-se “Futurismo”, onde, entre outros, colaboraram Mário Sá-Carneiro, Fernando Pessoa e Almada Negreiros.



Culturalmente, embora tenha convivido e ajudado a divulgar alguns dos maiores nomes do modernismo português, Carlos Augusto Lyster Franco está algo esquecido. E a sua obra literária, apesar de não ser muito extensa, está há muito esgotada.



O acervo histórico da Biblioteca Tomás Cabreira ainda possui dois exemplares datados de 1908 do livro Illuminuras (Contos e Novellas). Apesar do seu estado de conservação exigir um manuseamento cuidadoso, o valor literário da obra justificou a divulgação de alguns dos seus textos pelos nossos alunos.

O facto de serem pequenos contos, com uma temática muito diversa, que vai desde a descrição do horror da morte e de todos os monstros noturnos, que personificam muitas mitologias universais, até à exaltação da beleza feminina mais pura e às paisagens mais bucólicas, numa escrita simples mas literariamente cuidada, quase pictórica, não deixou ninguém indiferente.



Assim, a equipa das Bibliotecas e os professores participantes não ficaram surpreendidos, quando a aceitação e a participação dos alunos superaram mesmo algumas expectativas mais optimistas. A qualidade do texto transformou este projeto numa autêntica galeria de arte, onde os alunos de Artes Visuais do Ensino Secundário produziram individualmente ilustrações/pinturas originais, com aplicação de diversas técnicas, como aguarela, caneta caligráfica, guache, lápis de cor, caneta de gel, acrílico, pastel, lápis de grafite, tinta-da-china, carvão, caneta posca…



E é com esses trabalhos resultantes da interpretação inspirada em alguns contos do escritor/pintor Carlos Augusto Lyster Franco que os professores e os respectivos alunos estão a concorrer ao Prémio Escolar Ano Europeu do Património Cultural 2019. A acompanhar cada pintura, além da identificação do aluno e da técnica utilizada, encontra-se um excerto do conto que serviu de base ao trabalho.





No sentido de dar cumprimento ao ponto 4 do regulamento “produzir duas apresentações em formato digital”, especificamente neste trabalho, e dada a universalidade do conto "Os Corvos", decidimos apresentar a Banda Desenhada em versão bilingue (português e Inglês).



Lyster Franco era um homem de uma vasta cultura que fazia questão de a divulgar através das suas obras literárias, artísticas e jornalísticas. Em qualquer delas se nota a sua vocação pedagógica, pois também foi professor. São inúmeras as referências às mitologias nórdicas, germânicas, anglo-saxónica, grega e romana que mostram bem o seu saber enciclopédico.



As alusões às diversas religiões (cristã, judaica, budista…) inseridas nas pequenas narrativas do livro Illuminuras trazem sempre uma mensagem de vulnerabilidade e finitude do ser humano, mas são simultaneamente um exemplo de tolerância e respeito para o nosso mundo em permanente conflito.



As descrições e a personificação de Morte em alguns dos seus textos antecipam e poderiam mesmo ter servido de guião e inspiração para filmes como ”O Senhor dos Anéis” ou “The Walking dead”. Algumas das ilustrações feitas pelos alunos demonstram-no perfeitamente.



Por estes pequenos exemplos, Carlos Augusto Lyster Franco era um homem do seu tempo, vanguardista e republicano, atento aos acontecimentos não só de Portugal do início do séc. XX, mas de toda a Europa. Na sua obra literária, encontramos referências culturais a pintores e autores portugueses e europeus, alguns já esquecidos, como por exemplo no conto “As Ninfas do Luar”:



“Cada filandra (1), cada feixe luminoso de luar, demuda-se certamente numa encantadora Ninfa de cabelos de prata e carnes idealmente róseas... como as que Gherardo delle Notti(2) e Van der Neer(3) reproduziam em seus quadros admiráveis e repletos de misteriosas tonalidades!”

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(1) Filamento fino e extenso.

(2) Pintor holandês famoso por seus quadros com cenas meticulosamente iluminadas.

(3) Pintor paisagista da Idade de Ouro Holandesa, especializado em pequenas cenas noturnas iluminadas apenas pelo luar e incêndios, e paisagens de inverno com neve.



(As notas de rodapé e o excerto apresentado já são o resultado do tratamento do texto original com atualização da escrita e respetivo glossário).



À laia de conclusão, Carlos Augusto Lyster Franco, apesar de esquecido, não é propriamente um desconhecido. Os diferentes estudos, teses e biografias que têm vindo a ser feitas por professores e investigadores da Universidade do Algarve e da Faculdade de Belas Artes de Lisboa, as exposições e as conferências promovidas pelo Museu Regional de Faro e a Câmara Municipal de Faro ajudam a manter vivo o seu nome.



Mas as referências à sua obra literária são escassas ou inexistentes, daí a importância do nosso trabalho e a participação neste Concurso, que consideramos como um passo importante na divulgação de uma personalidade da nossa cultura.



O livro Illuminuras (Contos e Novellas) é o exemplo de um património literário imaterial, regional e nacional, que Portugal e a Europa devem conhecer. Pensamos que o trabalho dos nossos alunos vai dar uma grande ajuda no seu reconhecimento, começando pelas gerações mais novas.



Informamos que alguns dos contos se encontram digitalizados e disponíveis na Biblioteca Digital do AETC onde podem ser lidos através do link

agr-tc.pt/bibliotecadigital)



Referências:



AFONSO, Ana Rita Carvalho, A Obra Gráfica de Carlos Augusto Lyster Franco, Tese de Mestrado em Desenho, Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes.



MESQUITA, José Carlos Vilhena, Professor Universitário, investigador da Universidade do Algarve.



Museu Municipal de Faro.



Câmara Municipal de Faro.



Museu da Marinha Almirante Ramalho Ortigão de Faro.

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